Campeão mundial em consumo de crack, o País lida com a ineficiência de políticas para combater o tráfico e recuperar viciados ao mesmo tempo em que enfrenta o desafio de minimizar os efeitos da droga
“Estamos falando de um fenômeno parecido ao de usuários de cocaína injetável no passado. São casos graves e de alto impacto familiar e com um agravante: agora o crack tem sido oferecido para indivíduos extremamente frágeis, vulneráveis, que precisam ser muito mais protegidos”, observa o psiquiatra Carlos Salgado, conselheiro da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead).
Para Salgado, é urgente a necessidade de se agir para combater a disponibilidade da droga e para atender o usuário. “O Ministério da Saúde não tem se mobilizado para abrir leitos para dependência química e, paradoxalmente, o Ministério da Justiça tem feito isso, mas são poucas as oportunidades e está sendo feito pelo ministério errado. Por outro lado a Saúde tem investido em agentes de repressão e não de assistência, fica complicado”, critica Salgado. “Sem contar o jogo de empurra que a gente vê nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) entre a Federação e os municípios, enquanto o usuário que procurar atendimento não terá equipamento ou estará sem pessoas para o atendimento, já que há uma expectativa de contar com o trabalho voluntário.”
Em São Paulo, onde o problema do crack começou há mais de 20 anos, antes de virar uma epidemia nacional, as políticas públicas para conter o avanço das drogas na sociedade também têm se mostrado ineficientes, apesar do esforço feito, segundo comentou o atual coordenador estadual de políticas sobre drogas, Luis Alberto Chaves de Oliveira, o Laco, médico que desde 1985 atua em projetos contra abuso de drogas e que também trabalhou para a Coordenadoria Municipal de Atenção às Drogas, na cidade de São Paulo.
“A questão das drogas é crônica e, sem dúvida, vem se agravando. O crack foi escolhido como bola da vez: é uma droga importante, produz dependência grave muito intensa e destrói rapidamente a vida da pessoa, gerando um série de fenômenos de aparência grotesca, o uso das drogas nas ruas e a dificuldade das pessoas em sair dessa situação”, reconhece Laco, que não vê uma solução a curto prazo para o problema.
“Tem saída, mas não há único modelo de atenção e tratamento. A perspectiva de reinserção social vai depender do modelo e da excelência do tratamento. É a mesma coisa do câncer: tem cura, embora muita gente morra ou não tenha condições de tratamento eficaz. Vai do tipo de tratamento e de como vai seguir o tratamento. Eu conheço modelos de caraterísticas de acolhimento religioso com eficácia de 50% a 60%, e outros modelos mais padronizados, com ação médica e social, onde há eficácia menor, de 20% a 30%”, aponta Laco, citando estudos que indicam a chance de recuperação em um terço dos usuários – sendo que o mesmo percentual morre por causas como a violência.
Apesar de reconhecer o tamanho do desafio, o coordenador estadual de políticas sobre drogas vê um avanço nos trabalhos. “Temos melhor atenção do que há 3 ou 4 anos. Acredito que não diminuiu o problema, mas estamos trabalhando para diminuir e isso não vai ocorrer de forma imediata, tem sempre gente nova entrando”, diz o médico. “Problema de drogas tem que combater de forma continuada e, mesmo com investimento e gente boa trabalhando, tratar problema de drogas faz parte da história da humanidade”, acrescenta Laco.
O uso de entidades religiosas também foi citado como auspicioso pelo psiquiatra Jorge Jaber, presidente da Associação Brasileira de Alcoolismo e Drogas (Abrad). “Existem condutas médicas, psicológicas, condutas de aconselhamento de 12 passos de narcóticos anônimos e, finalmente, o tratamento religioso, que acho importante frisar: é recomendado pela Associação Psiquiátrica Americana, a mais tradicional e antiga do mundo. Médicos não podem falar do ponto de vista religioso, por obrigação ética. Mas, estatisticamente, pessoas que se dedicam a atividade religiosa cristã têm probabilidade maior de recuperação. O psiquiatra deve indicar a pessoa a procurar entidades religiosas que tenham trabalho nessa área”, diz Jaber.
De acordo com o psiquiatra, a utilização da droga é como descobrir Deus, mas de maneira contrária. “Quando se descobre a existência de um poder superior, a pessoa tem sensação de grande revelação. Com a droga também, mas falam que é ‘um grande barato’. É uma sensação forte, de revelação, que ela quer repetir. Da mesma forma depois que descobre Deus é muito difícil esquecer e ela vai querer Deus sempre presente e precisará renovar essa relação com o poder superior frequentemente”, compara Jaber.
O médico explica como o crack age para tornar o usuário dependente. “O pulmão tem muitos vasos sanguíneos para absorver o oxigênio e respiramos 16 segundos para manter o organismo funcionando. O crack vai com a mesma velocidade do oxigênio para o cérebro e, rapidamente, o usuário já precisa de outra dose. Fica uma necessidade vital de consumir a substância. A sensação que eles têm é como se ficássemos 1 minuto sem respirar. Por isso ficam desesperados.”
Fernanda saiu de casa aos 15 e buscou apoio em uma entidade religiosa para se livrar do vício. Atualmente trabalha para recuperar viciados e se depara com situações em que, por exemplo, recolhe pedras e cachimbos das mãos de usuários em busca de tratamento. Ao sentir o cheiro da droga, confessa, tem a sensação de que fumou no dia anterior.
Experiência parecida foi vivenciada por Tatiana Gomes Martins, de 25 anos. “Com 11 anos eu saí de casa e aos 12 eu estava no crime, já viciada em maconha e loló (lança-perfume). Comecei a traficar e um dia resolvi experimentar o crack. Foi eu dar uma ‘lapada’ e acabou a vida”, descreve Tatiana. “Fiquei 6 anos como se fosse aquele mesmo dia, perdi o sentido da vida. Fui morar na cracolândia, em São Paulo, e para conseguir mais pedra cometia delitos e até cheguei a me prostituir”, acrescenta.
Para deixar as drogas, Tatiana contou com a ajuda da mãe, mudou de cidade, buscou auxílio religioso e também trabalha para tirar as pessoas da dependência química. “Tenho vontade de dizer a todos os usuários para acordarem para a vida, enquanto é tempo. E os pais nunca devem desistir dos filhos. Minha mãe lutou por mim. Ela acreditava que eu ia mudar”, diz ela, lembrando que o desejo do viciado de sair das drogas é o primeiro e mais importante passo para a recuperação.
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